quinta-feira, 29 de julho de 2021

Chef de cozinha desabafa sobre miséria no Brasil e post acende alerta sobre agravamento da fome

 


 BHAZ  - Em recente desabafo nas redes sociais, a chef e jurada do programas Famílias Frente à Frente e Cozinheiros em Ação, Carmem Virginia, fez um alerta para um problema antigo que voltou a assombrar a vida dos brasileiros. No post, Carmem afirma que se recusa a oferecer receitas feitas em fogo de carvão como alternativa ao gás, já que os preços estão cada vez mais altos.

“Eu me envergonho quando um jornalista me procura para dar opção de receitas com arroz fragmentado, feijão bandinha, osso, ovo, a volta do fogo de carvão como alternativa pro preço alto do gás! Me recuso a fazer esse papel, Não vou romantizar a miséria. Minha comida de quinta não é isso”, disse a chef.




Carmem ainda diz ficar triste com a quantidade de acidentes domésticos provocados pelo fogo de carvão. “Abro a minha casa pra pessoas há anos pra ensinar mulheres a melhorar sua alimentação, ensino alternativas contra o desperdício de alimentos, mas assim é indigno, já tínhamos superado isso há anos!”, lamentou.



Replying to @carmensvirginia
Resultado do nível de gatilho q esse assunto tem me causado uma pressão 22/10 Eu me entristeço de adoecer. Se vocês soubessem a quantidade de acidentes domésticos causados por fogareiros a álcool de posto que estão sendo usados no lugar do gás, não teriam a coragem de propor isso
São mulheres e crianças queimados em hospitais públicos, é o carvão que faz feder a casa, a roupa no varal, intoxica as pessoas com problemas respiratórios, sopa de osso, só se tiver carne! Isso é desumano nunca vou ensinar receita pra ser divulgado em internet ou jornal!
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Substituição cruel

A professora e pesquisadora Larissa Loures Mendes, do Departamento de Nutrição da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explica que a fome é uma das faces da insegurança no Brasil. “Quando a gente usa o nome ‘fome’ ou ‘insegurança alimentar grave’, estamos falando da mesma situação. Existe a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, que mede a percepção das pessoas em relação ao cenário de acesso físico ao alimento”, pontua.

Segundo a pesquisadora – que também é orientadora nos Programas de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde, Saúde Pública e Ciências da Saúde: Saúde da Criança e do Adolescente da universidade -, a insegurança alimentar não é só sobre não ter comida, mas também precisar substituir alimentos mais ricos por outros mais baratos por falta de dinheiro, ou precisar se readequar com as contas para ter o mínimo de alimentação.



“Segurança alimentar é quando as famílias têm acesso regular permanente aos alimentos de qualidade e quantidade suficientes sem comprometer o acesso de outras necessidades essenciais – saúde, educação, moradia etc. Na outra ponta, temos a insegurança alimentar grave [fome], que é a redução quantitativa dos alimentos que ocorre até mesmo entre as crianças do domicílio, ou seja, uma ruptura da alimentação resultante pela falta de acesso entre os moradores”, explica Larissa.

“E no meio dessa escala temos a insegurança alimentar leve, que é quando a família tem a preocupação ou incerteza de acesso aos alimentos em um futuro próximo”, completa a pesquisadora. Segundo ela, a crise econômica que o Brasil encara atualmente gera essa apreensão, esse medo de faltar alguma coisa, nos brasileiros.



“Nesse nível de insegurança leve há qualidade inadequada dos alimentos, resultante de estratégia que visa não comprometer a quantidade dos alimentos”, alerta Larissa, que explica ainda um outro nível do problema: “Há insegurança alimentar moderada, que há redução quantitativa de alimentos entre os adultos da casa ou também uma ruptura no padrão de alimentação, ou seja, as pessoas já não conseguem comer como antes. O que diferencia a grave da moderada é, principalmente, incluir as crianças”.

Pesquisa mostra disparidade

Larissa, juntamente com outros seis pesquisadores, é responsável pela pesquisa que mostrou que mais da metade dos domicílios no país – 59,4% – se encontram em situação de insegurança alimentar durante a pandemia. O levantamento foi feito por pesquisadores do grupo Alimento para Justiça da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a UnB (Universidade de Brasília).

Realizada entre novembro e dezembro do ano passado, com duas mil pessoas, o levantamento mostra que ao menos 31,7% dos entrevistados relataram estado de insegurança alimentar leve; outros 12,7% afirmaram moderada e 15% insegurança alimentar grave, ou seja, passando fome.

“Tivemos retrocesso nas políticas públicas de combate à fome no Brasil. Tivemos um problema muito sério que, em 2019, o governo federal optou por fechar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar Nutricional, que era um espaço para a sociedade civil atuar. Tudo isso tem agravado o cenário da fome no país”, afirma Larissa.

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