sábado, 17 de julho de 2021

Seis meses de vacinação: Brasil enfrenta falta de doses e falhas de comunicação


País era modelo de imunização em larga escala no mundo, mas patina na pandemia; especialistas apontam principais problemas


Completam-se neste sábado (17) exatos seis meses desde que a enfermeira Mônica Calazans recebeu uma injeção de Coronavac, em São Paulo, dando início à campanha de imunização contra a Covid-19 no Brasil. Desde então, 32,8 milhões de pessoas foram imunizados no país - com duas doses ou com a vacina de dose única: o montante corresponde a 20,6% da população adulta nacional. As informações são da CNN com base nas secretarias estaduais.

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a proporção é insatisfatória em um país cuja infraestrutura de saúde permitiria, a essa altura, ter imunizado toda a população. O custo do atraso, segundo eles, foram as mais de 300 mil mortes por coronavírus que aconteceram nos últimos seis meses e poderiam ter sido evitadas.


"O Brasil perdeu a chance de servir de exemplo e ser uma referência na vacinação contra a Covid-19", diz Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp (Universidade de Campinas) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). "Nós temos há 40 anos o melhor programa público de vacinação do mundo e temos um histórico de campanhas públicas de muito êxito, mesmo considerando a dimensão do nosso país e as dificuldades geográficas. O esperado era que mais uma vez o Brasil se colocasse como exemplo de vacinação rápida e ágil." 

Neste mesmo período, a título de exemplo, Israel imunizou 60% de sua população; o vizinho Uruguai, 59%; o Reino Unido, 52,36%; e os Estados Unidos, 47,96%. 



O primeiro semestre da campanha no Brasil foi marcado por denúncias de corrupçãoatrasos constantes do cronograma e declarações polêmicas de autoridades que por vezes colocaram as vacinas em descrédito. Houve também mudanças de orientação sobre intervalo entre as doses, falhas em bancos de dados, deslocamentos populacionais em busca de imunizantes, disseminação de notícias falsas, falta de comunicação por parte do governo e o surgimento de novos personagens sociais, como os fiscais de comorbidade e os sommeliers de vacina. E a base de todos os problemas na campanha: a escassez dos imunizantes. 

À CNN, o Ministério da Saúde argumenta que a demora na obtenção de vacinas foi consequência da alta demanda mundial, e que as expectativas são grandes para que, no segundo semestre, o ritmo acelere o suficiente para vacinar toda a população maior de idade no país. 



Avança em alguns estados e municípios o calendário para aplicar as primeiras doses, que foram priorizadas pelo PNO (Plano Nacional de Operacionalização contra Covid-19), documento produzido pela coordenação-geral do PNI (Programa Nacional de Imunizações) como medida adicional de resposta ao enfrentamento da doença. Até sexta, 87,3 milhões de brasileiros haviam recebido ao menos uma dose, o que corresponde a 55% da população adulta. 

Neste sábado (17), quando se completam os seis meses da campanha, São Paulo aplica a primeira dose em pessoas entre 35 e 37 anos. O Rio começa a imunizar a faixa dos 37. Todos os cronogramas são feitos com base na expectativa de remessas de imunizantes e já sofreram diversas alterações devido ao não cumprimento de entregas e o consequente desabastecimento dos postos. 

Enquanto isso, os números da pandemia começam a cair pela primeira vez desde janeiro, mas seguem assustadores: na sexta-feira (16), foram mais de 45 mil casos confirmados e 1.456 mortes, segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). A média móvel de mortes, um balanço dos últimos sete dias, vem apresentando queda desde meados de junho, mas permanece elevada, acima de mil. 

Especialistas reforçam ainda que, apesar do avanço da vacinação, é necessário manter as demais medidas de proteção contra o coronavírus, como o uso de máscaras, a higienização e as políticas de isolamento social.

Entenda os principais pontos que marcaram os primeiros seis meses da imunização contra a Covid-19 no Brasil.

Faltou vacina

O Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro conta com 36 mil salas de vacinas espalhadas pelo Brasil, que servem tanto para aplicar imunizantes de rotina como para campanhas específicas, como é o caso da gripe todos os anos e da Covid-19, em 2021. O PNI é anterior à existência do Sistema Único de Saúde (SUS), que possibilitou sua expansão, e foi responsável pela erradicação de doenças como a varíola. 

Hoje, por meio do PNI, o Brasil consegue ofertar a sua imensa população acesso gratuito às vacinas recomendadas pelos organismos internacionais de saúde. Na prática, isso significa que, antes mesmo de a pandemia começar, o país já dispunha da infraestrutura necessária para iniciar uma campanha emergencial desse porte. 

"Esse era um dado muito positivo para o Brasil, pois para imunizar a população contra o coronavírus não era necessário construir uma infraestrutura do zero. Saímos à frente nesse sentido", diz José Cássio de Moraes, professor da Santa Casa de São Paulo e integrante do Observatório Covid-19, iniciativa independente que reúne pesquisadores para disseminar informações sobre a doença com base em dados. 

Segundo Moraes, no entanto, a capacidade do sistema brasileiro não foi usada. "Essas 36 mil salas poderiam estar aplicando no mínimo dois milhões de doses por dia, como já foi feito anteriormente. Isso dá 10 milhões de doses por semana, 40 milhões por mês. Em seis meses, poderíamos ter toda a população adulta vacinada", calcula o professor. 



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