domingo, 14 de abril de 2019

A macabra sessão de cinema da Assembleia Legislativa de São Paulo

Um grupo de deputados abriu as portas do auditório Paulo Kobayashi, dentro da Alesp, para a exibição do filme "1964, o Brasil entre armas e livros". A obra é da Brasil Paralelo, uma produtora que tem se especializado em reescrever a história do Brasil a partir de ideologias, distorções e mentiras

Quando morreu, o historiador francês Marc Bloch deixou inacabado o manuscrito Apologia da história ou O ofício do historiador, publicado em 1949 pelo amigo e também historiador Lucien Fevbre. Judeu, Bloch deixara a direção da mais importante revista de história da época, a Revue des Annales, para entrar na resistência ao nazismo. Foi pego, torturado e fuzilado por nazistas próximo à cidade de Lyon no dia 16 de junho de 1944, dias antes da libertação da França. No manuscrito inacabado, Bloch, incontestavelmente um dos maiores historiadores do nosso tempo, discorre sobre a importância da história para a humanidade. Ele conclama os historiadores a saírem dos gabinetes de pesquisa e colocarem as experiências teóricas na vida prática, da luta.



Essa longa preleção se fez necessária para comentar os terríveis acontecimentos que tiveram lugar no último dia 8 de abril na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Um grupo de deputados abriu as portas do auditório Paulo Kobayashi, dentro da Alesp, para a exibição do filme 1964, o Brasil entre armas e livros. O filme é da Brasil Paralelo, uma produtora que tem se especializado em reescrever a história do Brasil a partir de ideologias, distorções e mentiras. O evento foi organizado pelo deputado do PSL Douglas Garcia, que atacou a comunidade LGBT num dia e acabou por se assumir homossexual na sequência, e Castello Branco, também do PSL. Ainda na mesa, se encontravam o Cabo Anselmo, informante da ditadura, o delegado Carlos Augusto Fleury Filho (filho do delegado Fleury, do Dops) e o ex-delegado Carlos Alberto Augusto. Anselmo, Fleury pai e Carlos Alberto, todos muito envolvidos com os crimes da ditadura militar.

Na plateia estavam apoiadores da ditadura e do presidente Bolsonaro. Não houve qualquer debate ou polêmica, já que os presentes apoiaram os integrantes da mesa quando os mesmos homenagearam com aplausos e palmas o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido torturador paulista que dirigiu o DOI-Codi, o órgão responsável pelo sequestro, tortura e morte de opositores da ditadura, localizado na rua Tutoia. Foi no DOI-Codi, por exemplo, que o jornalista Vladimir Herzog morreu, depois de uma sessão de tortura em 25 de outubro de 1975.


O filme exibido no auditório é recheado de incongruências, distorções e mentiras históricas, que não vale a pena abordar, tão batidas que são – e tão inconsistentes e contestadas por historiadores comprometidos com os fatos. Não passam nem por detector de mentiras, nem por uma análise mais apurada.

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