segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Viúva de miliciano morto é um arquivo vivo

  




Folha de S Paulo - Ex-presidente e ex-patrono da escola de samba Unidos da Vila Isabel, Bernardo Bello Barbosa diz que a tentativa de delação premiada de Júlia Mello Lotufo, viúva do miliciano Adriano da Nóbrega, é “uma farsa”. Júlia acusa Barbosa de ter sido sócio de Adriano no “Escritório do Crime” e o mandante de pelo menos dez mortes executadas pelo ex-policial. Ela já gravou depoimentos para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.




Ex-presidente e ex-patrono da escola de samba Unidos da Vila Isabel, Bernardo Bello Barbosa diz que a tentativa de delação premiada de Júlia Mello Lotufo, viúva do miliciano Adriano da Nóbrega, é “uma farsa”. Júlia acusa Barbosa de ter sido sócio de Adriano no “Escritório do Crime” e o mandante de pelo menos dez mortes executadas pelo ex-policial. Ela já gravou depoimentos para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.





“Eu afirmo veementemente que a Júlia está mentindo”, diz Bernardo Bello em entrevista à coluna.

Um dos trunfos que a defesa de Bernardo Bello acredita ter é o pedido de conservação da gravação de uma conversa entre ele e o atual marido de Júlia, o empresário Eduardo Giraldes, que é fabricante de azeite. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é citado no diálogo.

Bernardo Bello e Giraldes se encontraram em junho, antes que a proposta de delação de Júlia Lotufo viesse a público —mas quando já corriam rumores de que a viúva poderia colaborar com a Justiça.




Investigada em processo que tramita na 1ª Vara Criminal Especializada do Rio, ela é acusada de lavagem de dinheiro a serviço da milícia. Está em prisão domiciliar, de tornozeleira, e tenta uma delação premiada para se livrar de eventuais penas e deixar o Brasil com o novo marido, Eduardo, que conheceu alguns meses depois da morte do capitão Adriano.

Na conversa com Giraldes, Bello afirma que os promotores não estariam interessados nele (“é óbvio que o que querem não é o bobalhão aqui”), mas sim que a viúva do miliciano “fale de [Jair] Bolsonaro”.

O capitão Adriano era ligado à família do presidente da República e foi citado na investigação que apura a prática conhecida como “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. A mãe e a primeira mulher do miliciano trabalhavam com o parlamentar e teriam repassado parte de seus salários ao esquema.




“Não vai falar”, responde o atual marido de Júlia sobre Bolsonaro. “Se ela souber, e ela quiser falar”, emenda Bernardo Bello. “Mas se souber, eu também não vou deixar ela falar”, segue Eduardo Giraldes.

Bernardo diz então acreditar que, se citar Bolsonaro, vão acabar com Júlia “de verde, amarelo, azul e branco”.

“Se ela não quiser falar… meu irmão, até porque, sabe por quê? Vai acabar com a vida dessa menina”, afirma o ex-presidente da Vila Isabel.




O marido de Júlia concorda: “E com a minha”.

O diálogo mostraria, segundo a defesa de Bello, que a tentativa de colaboração da viúva não reflete o que ela de fato sabe e viveu. Adriano da Nóbrega foi morto em 2020 numa operação policial e, segundo relato de seu advogado, Paulo Emilio Catta Preta, temia ser alvo de “queima de arquivo”.

A conversa de Bernardo Bello com Giraldes poderia ainda endossar o argumento da defesa de que Bello não tinha proximidade e muito menos associação com o capitão Adriano.




O empresário repete isso em diversos momentos da conversa com Giraldes. O atual marido da viúva do miliciano, por sua vez, afirma na gravação que Júlia “não tem nada contra” Bernardo Bello.

O marido de Júlia diz ainda no diálogo que já gastou R$ 6 milhões com advogados para que ela ficasse presa em regime domiciliar, como foi autorizado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). E afirma precisar de mais R$ 6 milhões para derrubar a medida cautelar e reaver o passaporte dela. Giraldes afirma que os dois têm planos de se mudar para o exterior.

Uma parte da gravação foi divulgada pelo site Brasil de Fato na semana passada. A coluna teve acesso a outros trechos, inéditos, da conversa.




Bernardo Bello confirmou à Folha o conteúdo do diálogo, inclusive as falas do trecho em que o presidente Jair Bolsonaro é citado. Seu advogado, Fernando Fernandes, afirma que pedirá uma perícia do registro.

O marido de Júlia Lotufo, Eduardo Giraldes, por sua vez, enviou mensagem à coluna afirmando que sua defesa se manifesta nos seguintes termos: “A gravação que foi vazada para a mídia não retrata a íntegra da gravação, e a forma colocada na mídia deturpa e manipula os fatos. A defesa só vai se manifestar mediante publicação da gravação na íntegra”.

As tratativas de Júlia Lotufo com o Ministério Público do Rio de Janeiro para fazer delação começaram em junho.




A viúva de Adriano da Nóbrega hoje cumpre prisão domiciliar por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Teve que entregar o passaporte à Justiça e colocar tornozeleira. O condomínio onde vive, na Barra da Tijuca, é monitorado pela polícia e ela diz temer ser assassinada.

Como contrapartida da colaboração com a Justiça, Júlia pretende se livrar de eventuais penas e morar fora do Brasil com o novo marido, Eduardo Giraldes. Produtor do Azeite Royal, que já patrocinou clubes como o Flamengo, ele já foi condenado em primeira instância na Justiça por integrar uma quadrilha de clonagem de cartão de crédito.

A proposta de delação da viúva dividiu o Ministério Público do Rio de Janeiro: uma parte de seus integrantes vê as declarações dela com reserva.




Apesar da proximidade já confirmada de Adriano da Nóbrega com a família de Jair Bolsonaro, Júlia não fala do esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro em sua proposta de delação.

Ela poupa ainda Fabrício Queiroz, amigo e ex-assessor da família Bolsonaro, próximo do capitão Adriano e suspeito de coordenar o esquema das rachadinhas.

O próprio Queiroz admite que indicou a mãe de Adriano, Raimunda Magalhães, e a primeira mulher dele, Danielle da Costa Nóbrega, para trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). As duas teriam entregue parte de seus salários ao esquema. Em 2005, quando era deputado estadual, Flávio atendeu a um pedido do pai, Jair Bolsonaro, e homenageou Adriano da Nóbrega na Alerj. O ex-policial recebeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Casa.




As tratativas de Júlia com o MP resultaram em desentendimentos e contribuíram para a saída das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile da força-tarefa que investiga o assassinato da vereadora Marielle Franco.

A saída das promotoras do caso, em julho, gerou reação da família e de políticos ligados a Marielle, que confiavam no trabalho delas.

Em seu perfil no Twitter, Monica Benício, viúva de Marielle, escreveu: “Governador Claudio Castro [do Rio] e Procurador-Geral de Justiça do RJ, quero saber do que se trata: os senhores não têm competência para impedir a interferência ou estão interferindo. Podem explicar?”.




O governador Claudio Castro (PL-RJ) é aliado da família de Jair Bolsonaro.

A proposta de acordo de delação apresentada por Júlia ao MP tem 12 anexos.

Além de apontar Bernardo Bello como principal sócio de Adriano da Nóbrega, a viúva afirma que ele chegou a procurar o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel para falar sobre a conveniência de o miliciano ser morto, e não preso, caso fosse encontrado pela polícia (ele estava foragido).


Júlia diz que ouviu a história do próprio Adriano da Nóbrega.

O ex-governador nega e diz que nunca antes tinha ouvido falar de Bernardo Bello. O empresário, por sua vez, afirma que a história não tem pé nem cabeça e que jamais viu o governador.

A viúva afirma também que os corpos das vítimas do “Escritório do Crime” comandado por Bello e Adriano da Nóbrega eram enterrados no haras da fazenda Modelo, em Guarapimirim, no Rio. A propriedade é da família do bicheiro Waldemir Paes Garcia, o Maninho, ex-sogro de Bello.




Segundo reportagem da revista Veja sobre a delação, Júlia afirmou ao MP que Bello recebia entre R$ 500 mil e R$ 700 mil de Bello por cada execução.

Júlia Lotufo cita ainda autoridades do Judiciário e do MP que receberiam propina para acobertar crimes. E aponta um suposto mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Segundo a viúva, um dos chefes da milícia de Rio das Pedras procurou o capitão Adriano para sondá-lo sobre a possibilidade de ele executar a vereadora. O capitão teria rechaçado de imediato, e não teria participado do plano. A encomenda teria partido do ex-vereador Cristiano Girão —que nega envolvimento no assassinato.




Como cita autoridades que têm prerrogativa de foro, a proposta de colaboração de Júlia Lotufo foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República, em Brasília. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), que pode ou não homologá-la, diz que ela ainda não foi enviada à Corte.

A gravação da conversa entre Bernardo Bello e Eduardo Giraldes registra o encontro que eles tiveram em junho deste ano.

Naquele mês, duas informações começaram a circular no submundo do Rio: a primeira, a de que Júlia comprometeria Bernardo Bello em uma tentativa de delação premiada (o que realmente ela acabou fazendo). A segunda, a de que Bello poderia encomendar a morte de Júlia e do atual marido dela.




O encontro entre Bello e Giraldes foi marcado pelo advogado Pablo Barra Siqueira, que é amigo de ambos. Os três conversaram dentro de um carro, na entrada do condomínio em que Júlia cumpre prisão domiciliar, na Barra da Tijuca. Pablo confirmou sua participação à coluna.

A ideia era que eles esclarecessem, olhos nos olhos, o que era verdade e o que era mentira sobre os rumores que se espalhavam no circuito em que vivem. Ambos negaram tudo: Bello disse que jamais faria mal a Júlia. E Giraldes disse que Júlia nada tinha contra ele.

No meio da conversa, Bernardo Bello afirma estar convicto de que promotores do Rio querem, na verdade, que Júlia comprometa Bolsonaro e sua família na delação. É quando Eduardo Giraldes afirma que não vai deixar ela fazer isso.

As histórias de Bernardo Bello e da viúva se entrelaçam porque o miliciano Adriano da Nóbrega trabalhava para o bicheiro Waldemir Paes Garcia, o Maninho. E Bello foi casado com Tamara Harrouche Garcia, uma das filhas de Maninho.

A família Garcia é historicamente ligada à contravenção e ao carnaval do Rio –o pai de Maninho, Waldomiro Garcia, o Miro, era patrono da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. O filho herdou o posto.

A saga da família é sangrenta: Maninho foi assassinado em 2004. Depois da morte, o capitão Adriano virou segurança do irmão dele, Alcebíades Garcia, o Bid.

Em 2017, Mirinho, filho de Maninho, também foi executado. Em 2020, chegou a vez de Bid.

Adriano então teria passado a trabalhar com a outra filha de Maninho, Shanna Harrouche Garcia, ex-cunhada e hoje desafeta de Bello –ela inclusive foi baleada na porta de um shopping center do Rio em 2019 e o acusa de tentar matá-la.

No centro das desavenças da família está a disputa por um patrimônio de mais de R$ 25 milhões que teria sido deixado por Maninho, em pontos de jogo do bicho, imóveis urbanos e fazendas.



Acusado pela delatora Júlia Lotufo de ser sócio de Adriano, Bello afirma que na verdade o miliciano trabalhou com Shanna até o fim de sua vida.

E sustenta que hoje a ex-cunhada teria se associado à viúva dele para destruir a sua vida, acusando-o de ser sócio do “Escritório do Crime”.


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