domingo, 11 de julho de 2021

Geladeira vazia: Com crise, famílias ficam sem comida na mesa e usam farofa e biscoito para enganar a fome

 


"Eu sei o que é passar fome. Quando falta comida, a gente corre com a venda de reciclado para não deixar os filhos sem nada. Já aconteceu de eu deixar de comer para dar para eles. Agora, com a pandemia ficou tudo mais difícil porque as coisas aumentaram muito de preço."

O relato é de Mariana Cristina Batista Soares, 38, que vive com o companheiro e os três filhos em uma casa na região conhecida como Fazenda dos Mineiros, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio.

Maria e o filho mais velho vendem material reciclado, mas o número de catadores aumentou na cidade. Ela diz que a renda familiar encolheu, e o preço dos alimentos disparou. Hoje a venda de plástico e de alumínio rende até R$ 300 por mês. O orçamento é reforçado com o auxílio emergencial pago pelo governo no valor de R$ 375.

No dia em que o UOL visitou a família, há duas semanas, Maria e os filhos se alimentaram com um pão pela manhã. Para o almoço havia arroz, feijão e ovo.

A família de Maria Cristina é assistida pela Associação Oficina de Vida, que mantém uma creche no interior da comunidade e atende 80 crianças entre dois e cinco anos de idade. Além de funcionar como escola, serve refeição aos alunos, distribui cestas básicas e quentinhas para as famílias da comunidade. A creche se mantém com doações.


Brasil pode voltar ao mapa da fome

A realidade de Maria é também a de muitas outras famílias de todo o país. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) estima que o Brasil tenha hoje 9% da população subalimentada.

Caso a projeção se confirme, o país entrará novamente no mapa da fome - um levantamento divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas). Para que o país apareça no estudo, é necessário que mais de 5% da população esteja na situação de insegurança alimentar, ou seja, sem acesso pleno e permanente a alimentos, como no caso da família visitada pelo UOL.

De acordo com Daniel Balaban, representante do programa no Brasil e diretor do Centro de Excelência contra a Fome, a situação brasileira começou a se agravar ainda em 2016 e se deteriorou após a crise sanitária do novo coronavírus.

"Não podemos colocar a fome exclusivamente na conta da covid-19. A fome já vinha crescendo nos últimos cinco anos em decorrência da retirada de recursos de programas sociais. Hoje, a fome é fruto das escolhas que o nosso Congresso fez e o custo da miséria é maior que o investimento para evitá-la. O número de pessoas pedindo comida na rua quadruplicou e a pandemia acelerou ainda mais esse processo."


Sem auxílio emergencial

O auxílio emergencial, que acaba de ser prorrogado, não chegou a todos os necessitados.

Em Duque de Caxias (RJ), na Baixada Fluminense, Rosania Duarte da Silva também vive em situação de vulnerabilidade na localidade conhecida como Beco do Aquário - região rural no Complexo da Mangueirinha.

Ela e os quatro filhos vivem em uma casa pequena no alto da comunidade. A cama divide o espaço com o fogão e a geladeira praticamente vazia. No dia que o UOL visitou a família, Rosania estava sem comer desde o dia anterior.

"Hoje minha filha só comeu biscoito, eu não como desde ontem, precisei guardar a comida que ganhei para os outros filhos. Eu saio para pedir comida de porta em porta. Só assim que a gente come. Eu peço arroz, feijão e linguiça. Hoje, a gente não comeu ainda", disse.

A Maria Luísa, sua filha de seis anos, comeu um biscoito que a vizinha deu para ela; já a mãe deixou de comer para alimentar os filhos. "Durmo com fome às vezes", diz Rosania.

A ex-moradora de rua não conseguiu obter o auxílio emergencial do governo nem neste ano nem no ano passado devido a problemas na documentação. Sem trabalho, a família vive com assistência dos vizinhos e da ONG "Embaixada do Bem" que atua há dois anos na região distribuindo cestas básicas e reforçando moradias.


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