segunda-feira, 15 de março de 2021

Vídeo: Ex-mulher de Bolsonaro ficou com RS$ 54 mil de esquema de rachadinhas


O então deputado federal Jair Bolsonaro empregou em seu gabinete por oito anos (de 1998 a 2006) Andrea Siqueira Valle, a irmã de sua segunda mulher, Ana Cristina Siqueira Valle. Um ano e dois meses depois que a irmã deixou de trabalhar para Jair, Ana Cristina ficou com todo o dinheiro acumulado na conta em que Andrea aparecia como titular e recebia o salário: um saldo de R$ 54 mil - quantia equivalente a R$ 110 mil, em valores de hoje.



É o que mostram transações identificadas pelo UOL na quebra de sigilo de Andrea, determinada no âmbito da investigação do caso da "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro): A prática de devolução ilegal de salários de assessores. A quebra foi autorizada porque Andrea também trabalhou para Flávio.

Procurado por email, telefones e mensagens de aplicativo WhatsApp, a Presidência da República não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Esta é uma das quatro reportagens realizadas pelo UOL a partir da análise de dados de 100 quebras de sigilos bancários de investigados no caso da "rachadinha" no gabinete de Flávio na Alerj.

O UOL teve acesso às quebras de sigilo em setembro de 2020, quando ainda não havia uma decisão judicial contestando a legalidade da determinação da Justiça fluminense, e veio, desde então, analisando meticulosamente as 607.552 operações bancárias distribuídas em 100 planilhas -uma para cada um dos suspeitos. O STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou o uso dos dados resultantes das quebras de sigilos no processo contra Flávio, mas o Ministério Público Federal recorreu junto ao STF (Supremo Tribunal Federal). O UOL avalia que há interesse público evidente na divulgação das informações que compõem estas reportagens.




Cunhada no gabinete

Andrea foi empregada por Jair Bolsonaro de setembro de 1998 a novembro de 2006, período em que Bolsonaro e Ana Cristina tinham um relacionamento estável —a união durou de 1998 a fins de 2007.

Pouco depois, em janeiro de 2008, Ana Cristina fez as operações para "zerar" a conta em que a irmã aparecia como titular em uma agência que fica dentro da Câmara dos Deputados, em Brasília.
Entre os anos de 2007 e 2009, Andrea declarou como moradia à Receita Federal, em seu Imposto de Renda, o endereço da casa onde Ana Cristina e Bolsonaro viviam na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Apesar disso e de ter a conta bancária dentro da Câmara, Andrea nunca morou na capital federal e nem na casa na capital fluminense. Vivia em Resende, no sul do Rio de Janeiro, onde fazia diferentes serviços gerais, a exemplo de faxinas.

Desconheço esse registro, diz ex-mulher de Bolsonaro

O UOL questionou Ana Cristina sobre a movimentação da conta bancária da funcionária do gabinete de Jair Bolsonaro. "Eu? Então, o banco tem que mostrar esse registro porque eu desconheço", afirmou Ana Cristina.

Depois, continuou: "Esse assunto você tem que ligar para o meu advogado", afirmou.

A reportagem também questionou Andrea, que disse apenas: "Não tenho nada para conversar com vocês".

O advogado Magnum Cardoso, que representa Ana Cristina, afirmou que "a defesa não irá se manifestar tendo em vista que o procedimento tramita sob sigilo." O advogado diz ainda "repudiar veemente o vazamento dessas informações, algo que vem se tornando rotina em se tratando desse procedimento."



Parentes de ex-mulher são investigados

Além de Andrea, outros 17 parentes de Ana Cristina foram contratados no gabinete de Jair ou de seus filhos.

Entre eles estão os pais de Ana Cristina: o casal José Procópio e Henriqueta Valle. Além de Andrea, um irmão chamado André Valle. Também os cunhados Marta Valle e Gilmar Marques. Do restante da família, ainda foram contratadas três tias, um tio, sete primos e a madrasta de um dos primos.

Na investigação sobre Flávio, dez dessas pessoas são alvos. Todos com sigilos quebrados, o bancário e o fiscal, além de terem sido alvo de mandados de busca e apreensão. Já no inquérito que visa apurar suspeitas no gabinete de Carlos Bolsonaro, além de Ana Cristina, seis parentes dela são investigados. A irmã Andrea é investigada em ambos os casos.



Movimentação financeira

A quebra de sigilo começa em janeiro de 2007, dois meses depois da exoneração de Andrea na Câmara dos Deputados. Naquele ano, a primeira movimentação feita por Ana Cristina ocorreu em julho. Seu nome e seu CPF ficaram registrados na transferência de R$ 14 mil da conta corrente para a poupança — tudo dentro da conta em que Andrea aparece como titular.

Já em janeiro de 2008, todo o saldo da poupança de Andrea foi transferido para a conta corrente — atingindo um total de R$ 53.643. Novamente, o banco registrou que Ana Cristina foi a responsável por realizar a operação.

No mesmo dia, um cheque neste exato valor saiu da conta de Andrea e foi depositado em uma conta de Ana Cristina no Rio, a mesma que ela indicou a Bolsonaro para receber a pensão de Jair Renan, filho do casal, após a separação. Em resumo, tudo que havia sobrado dos salários pagos por Bolsonaro para Andrea foi parar na conta de Ana Cristina.

Pessoas próximas a Ana Cristina ouvidas pelo UOL sob condição de anonimato disseram que Andrea não era a única a ter a conta bancária controlada pela ex-mulher de Bolsonaro. Ana Cristina chegaria a ficar com os cartões das contas onde eram depositados os vencimentos de alguns dos assessores.

A segunda mulher de Bolsonaro chefiou o gabinete de Carlos Bolsonaro entre 2001 e abril de 2008. Por isso, é investigada pelo MP-RJ no procedimento que apura a suspeita de contratação funcionários fantasmas e a prática da "rachadinha" entre a equipe do vereador.



Separação turbulenta

As transações de Ana Cristina na conta de Andrea, reveladas pela quebra de sigilo, ocorreram durante o turbulento processo de separação de Jair Bolsonaro.

Em outubro de 2007, Ana Cristina chegou a fazer um boletim de ocorrência numa delegacia do Rio acusando Bolsonaro de roubar um cofre que tinha em um banco na cidade. Segundo a revista Veja, o cofre continha joias avaliadas em R$ 600 mil, além de US$ 30 mil e R$ 200 mil em dinheiro vivo. No final de 2007, Bolsonaro se casou com Michelle.

Na separação, Ana Cristina ficou com a maior parte dos imóveis que o casal comprou em Resende, onde morava a família dela. Pouco depois de zerar a conta que a irmã aparece como titular dentro da Câmara dos Deputados, a ex de Bolsonaro se mudou para a Noruega, onde se casou novamente.
Era o fim de um relacionamento que durou quase dez anos. Ana Cristina e Jair se conheceram no final dos anos 1990, em uma manifestação de mulheres de militares que pediam aumento dos salários da caserna, em Brasília. Ela era casada com um coronel da reserva e trabalhava na Câmara. Ele mantinha uma família com Rogéria Bolsonaro, com quem teve os filhos Flávio, Carlos e Eduardo.

Depois de se conhecerem, Bolsonaro convidou Ana Cristina para trabalhar no seu gabinete. Em 1998, nasceu Jair Renan. Foi naquele ano que Bolsonaro começou a empregar parentes da nova mulher.

Depois da separação, Ana Cristina saiu de Brasília. Em fevereiro deste ano, voltou à capital federal. Ela afirma querer ficar perto do filho Jair Renan. Na semana passada, ganhou cargo de assessora parlamentar de uma deputada federal do PP.



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Salários recebidos superam R$ 1 milhão

Ao longo dos oito anos em que foi registrada no gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro, Andrea Siqueira Valle recebeu R$ 494 mil da Câmara dos Deputados — mais de R$ 1 milhão em valores corrigidos pela inflação do período. Em 2006, o salário bruto (sem desconto) para o cargo que ocupava era de R$ 3.005,39, sem contar eventuais gratificações.

Depois que Andrea foi exonerada, a conta de Brasília passou a ser pouco movimentada. No início de 2007, foram debitadas algumas faturas de cartão de crédito, no valor total de cerca de R$ 5 mil. Também foram feitos cinco saques de R$ 1 mil. A conta foi encerrada em 2008, pouco depois de Cristina depositar para si todo o saldo.

A quebra de sigilo também mostra como Andrea movimentou os salários que recebeu quando foi nomeada para gabinetes de filhos de Bolsonaro. Logo que saiu da Câmara de Deputados, tornou-se funcionária do gabinete de Carlos na Câmara de Vereadores do Rio — chefiado por Ana Cristina. Ficou no cargo por cerca de dois anos. Nesse período, sacou mais dinheiro do que o montante que recebeu.

Em 2008, Andrea foi registrada no gabinete Flávio Bolsonaro na Alerj, onde ficou por mais uma década. Nesse período nunca pisou na casa legislativa. Sua principal ocupação era se preparar para participar de campeonatos de fisiculturismo. Também sacou praticamente todo o salário que recebeu da Alerj — 99%.


Ao longo de 20 anos, Andrea recebeu cerca de R$ 2,25 milhões em valores corrigidos, considerando-se seus salários brutos. Mesmo assim, chegou a ter a conta de luz cortada, em Resende, e entrou na Justiça do Rio para pedir o religamento em março de 2010.

Por uma questão legal, os promotores precisam focar exclusivamente em informações relacionadas a Flávio, alvo da investigação. Por lei, Jair Bolsonaro não pode ser investigado por atos praticados antes de assumir a Presidência da República.

Assista ao vídeo: Animação mostra como funcionava o esquema de rachadinhas




Fonte: UOL







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