segunda-feira, 16 de março de 2020

Bolsonaro está realmente doente

Por ora, nada a ver com o coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro fez o teste e goza de boa saúde, embora cinco pessoas de sua comitiva tenham voltado doente dos Estados Unidos. Em breve, ele passará por um novo e talvez definitivo teste.
O mal que sofre é outro. Porque só um presidente da República com neurônios de menos seria capaz de aconselhar aos seus governados que não fossem às ruas contra o Congresso e a Justiça no momento em que uma pandemia aterroriza o mundo.
Para em seguida ele mesmo ir, confraternizando com os poucos que desprezaram seu conselho. Não confraternizou à distância, o que já seria grave. Estendeu a mão a pessoas, fez selfies com elas, mexeu no cordão de uma mulher que pendia do pescoço.


Enquanto o coronavírus avança, o Brasil dispõe na prática de dois governos, o que significa não ter nenhum: o comandado pelo lúcido ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta; e o governo de um Bolsonaro ensandecido, desequilibrado e irresponsável.
A qual deles o país dará ouvidos? Ao de Mandetta que manda as pessoas se recolherem às suas casas, cuidarem da higiene pessoal, evitarem correr para hospitais e supermercados e aguardarem com calma a passagem do pior momento da pandemia?
Ou dará ouvidos ao de Bolsonaro que festejou o fato de seus devotos mais radicais terem ido às ruas pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e a instalação de uma ditadura à semelhança daquela que durou 21 anos?


Em entrevista à CNN Brasil, Bolsonaro tratou o coronavírus como se fosse só mais uma doença por trás da qual haveria interesses políticos e econômicos. Reclamou da “histeria” e também da decisão de federações de fechar ao público os estádios de futebol.
É curioso. Ministros ligados a Bolsonaro comentam abertamente com amigos que o vírus foi criado em laboratórios na China e serve a objetivos estratégicos daquele país. Um vírus comunista, pois. O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, pensa a mesma coisa.
O que Bolsonaro imagina que ganharia com sua performance de ontem? Perderia o quê se tivesse aproveitado o domingo para repousar? Os auxiliares que consultou foram contra ele fazer o que fez. Sequer um único ministro apareceu ao seu lado.
A entrevista não programada à CNN Brasil foi reveladora do seu assombro com a condenação generalizada nas redes sociais de mais um passo em falso que deu. Só faltou clamar para que seus seguidores se apressassem a sair em sua defesa.
Atraiu críticas e mais nada. E aumentou a certeza compartilhada pelas cabeças coroadas da República e do mercado financeiro que ele está em acelerado processo de isolamento e de perda de relevância. Não sabe mais o que fazer – se é que soube um dia.
Faltam nove meses e meio para que complete dois anos de mandato. Se não resistir tanto tempo no cargo, haveria novas eleições. Se resistir e cair depois, assumirá o vice-presidente, o general Hamilton Mourão. É o que está na Constituição.
O que antes não se discutia a não ser aos sussurros, hoje está em exame em todas as rodas de conversas perfeitamente audíveis. O impeachment é sempre um processo traumático que abre feridas difíceis de cicatrizar. A renúncia seria o ideal.
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