segunda-feira, 22 de abril de 2019

AMEAÇADAS: Universidades públicas produzem mais de 90% da pesquisa do país; resta saber até quando

Ou Jair Bolsonaro está tremendamente mal-informado ou está deliberadamente desinformando a população sobre o tema


No último mês de março, cientistas brasileiros publicaram um estudo mostrando que a temperatura média do país pode aumentar 1,5 grau Celsius até a metade deste século se o desmatamento não for controlado. Origem da pesquisa: a UFRJ e a Uerj, duas universidades públicas, uma federal e a outra estadual, ambas do Rio.

Em fevereiro passado, médicos e biólogos mostraram que ser infectado pelo vírus da dengue pode proteger parcialmente as pessoas dos efeitos do vírus da zika. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) da Bahia e da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), duas instituições públicas.

Área externa do complexo do acelerador de particulas Sirus - Eduardo Knapp/Folhapress




Uma equipe internacional da qual participaram especialistas da Embrapa (empresa de pesquisa agropecuária pública), da USP e da UFMG (uma universidade estadual e outra federal, respectivamente) revelou, em dezembro passado, que o sudoeste da Amazônia foi um dos locais mais importantes para a transformação dos ancestrais do milho em plantas totalmente domesticadas, a partir de uns 6.500 anos atrás.
Em agosto de 2018, um grupo que inclui pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, instituição pública do Rio, identificou a origem do último surto de febre amarela a causar estragos sérios no país: macacos amazônicos que acabaram transmitindo o vírus da doença a seus parentes de outras regiões do Brasil.
Usando documentos públicos, dados de satélite e análises de campo, pesquisadores demonstraram que houve alta incidência de fraudes na extração de madeira supostamente legal no Pará entre os anos de 2012 e 2017. O estudo, também publicado em agosto passado, foi idealizado por cientistas da USP e da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
É, eu sei que esta é a coluna mais insuportavelmente chata oriunda do teclado do meu computador sobre a qual o leitor já teve a infelicidade de deitar seus olhos. Mas há método na minha repetição, pode acreditar. O resumo da ópera, caso você ainda não tenha percebido, é o seguinte: quem faz pesquisa no Brasil —aliás, quem faz inovação tecnológica também— são as instituições públicas, em grandíssima medida.
Está aí o Ranking Universitário Folha, coordenado com denodo todos os anos pela colega Sabine Righetti, que não me deixa mentir. Ranking geral das universidades brasileiras: entre as top 20, só há duas privadas (PUC-RS e PUC-RJ, a 18ª e a 19ª, respectivamente). Ranking de pesquisa: apenas uma instituição privada entre as 20 melhores (PUC-RS, a 19ª). No ranking de inovação, que mede invenções patenteadas e colaboração com empresas, só há quatro universidades particulares entre as top 20 (a melhor colocada delas é a Universidade de Caxias do Sul, em sexto).  
E, no entanto, o presidente Jair Bolsonaro afirmou recentemente: “Poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo”.
Com todo o respeito à Universidade Presbiteriana Mackenzie (62ª no ranking de pesquisa nacional), essa afirmação tem base factual quase tão tênue quanto a ideia de que não houve ditadura no Brasil a partir de 1964.
Ou o presidente da República está tremendamente mal-informado ou está deliberadamente desinformando a população sobre o tema. Ambas as possibilidades são graves e parecem confirmar o desprezo do atual governo federal pelos fatos, em especial quando eles não se encaixam em sua visão de mundo. 


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